Por Rayra Pereira Santiago
A denominação doença falciforme (DF) é caracterizada por um grupo de doenças que apresentam a hemoglobina variante S (Hb S), que é decorrente de uma alteração no gene estrutural beta, responsável pela síntese da cadeia polipeptídica beta da globina.
A homozigose da HbS (Hb SS) é denominada anemia falciforme (AF), doença que possui a gravidade mais elevada entre aquelas que integram o grupo de doença falciforme. A heterozigose dupla da HbS com outras hemoglobinas variantes, como no caso da doença SC (HbSC), doença SD (Hb SD-Punjab), ou ainda, as interações com as talassemias, como a talassemia Sβº (Tal Sβº) e talassemia S/β+ (Tal S/β+) é caracterizada pela ocorrência de um quadro clínico menos grave que o apresentado pelos pacientes com AF.
A doença falciforme é reconhecida pela mortalidade elevada, o que se dá principalmente por infecções bacterianas ou por seqüestro esplênico, que ocorrem geralmente após os dois a três primeiros meses de vida, com prevalência elevada nos primeiros 5 anos de vida. A doença falciforme possui morbidade elevada, necessitando de diagnóstico e tratamento precoces, já que a adoção de medidas profiláticas comprovadamente aumenta a sobrevida dos indivíduos e melhora a sua qualidade de vida, apesar de não possibilitar a cura clínica da doença, uma vez que se trata de uma doença genética.
A doença falciforme no Brasil apresenta prevalência alta e o seu diagnóstico passou a ser obrigatório em todos os estados, com a realização dos testes de triagem neonatal (Teste do pezinho). O diagnóstico das hemoglobinopatias é complexo e envolve a avaliação clínica e laboratorial, com conhecimento da história familiar para avaliação da herança genética.
O diagnóstico laboratorial da DF baseia-se na detecção da hemoglobina S. Os métodos utilizados identificam, além da doença falciforme, outras hemoglobinopatias, bem como as crianças heterozigotas ou portadoras de traço para a hemoglobinopatia. Os recém-nascidos com DF são assintomáticos devido ao efeito protetor da hemoglobina fetal, que, neste período da vida, representa cerca de 80% do total da hemoglobina. Por esse motivo os testes de falcização (pesquisa de drepanócitos) e de solubilidade são inadequados para o diagnóstico do perfil de hemoglobinas no recém-nascido por levarem a resultados falsos-negativos, já que as concentrações elevadas de hemoglobina fetal e baixas de hemoglobina S podem influenciar no diagnóstico, quando realizado nesta ocasião.
Em recém-nascidos com hemoglobinopatias, principalmente aquelas que envolvem a cadeia beta da globina, os testes de triagem só encontrarão traços da hemoglobina variante, sendo que o perfil de hemoglobinas definitivo só será obtido após o sexto mês de vida. Daí a importância da repetição dos exames até o final do primeiro ano de vida.
Inicialmente, os programas de triagem neonatal utilizavam dois procedimentos eletroforéticos complementares,compreendendo a realização da eletroforese em acetato de celulose em pH alcalino seguida da eletroforese em ágar citrato em pH ácido. A primeira técnica diferencia as hemoglobinas A da F e das variantes mais freqüentes, como as hemoglobinas S e C, mas é ineficaz para distinguir as hemoglobinas A2 da C, O e E, bem como a hemoglobina S da D ou da G devendo, portanto, ser confirmada pela eletroforese em ágar citrato em pH ácido. A associação dessas técnicas não constitui o procedimento mais adequado para a triagem neonatal populacional, pois, além de mais trabalhosa para realização em larga escala, apresenta sensibilidade e especificidade reduzidas quando se trata de um diagnóstico neonatal.
Atualmente, a maioria dos programas de triagem neonatal substituiu os métodos convencionais pela eletroforese por focalização isoelétrica (IEF) e pela cromatografia líquida de alta resolução (HPLC), já que são métodos de precisão elevada. Todos os casos investigados que apresentarem padrão inconclusivo ou duvidoso pela técnica em uso deverão ser reavaliados por métodos adicionais, visando aumentar a sensibilidade e a especificidade do diagnóstico. O ideal é que todo laboratório de triagem neonatal trabalhe com os dois métodos acima citados, sendo um o de uso rotineiro e o outro para confirmação do diagnóstico.
Para realização desses testes são utilizadas amostras de sangue fresco coletadas do cordão umbilical ou do calcanhar do recém-nascido transportadas em papel de filtro. Os métodos de triagem neonatal apresentam sensibilidade e especificidade excelentes, podendo, no entanto, ocorrer fatores interferentes, tais como prematuridade, transfusão sangüínea anterior à coleta de sangue, troca de amostras, erros de identificação ou de digitação dos resultados entre outros.
A hemoglobina normal predominante no indivíduo adulto é denominada hemoglobina A (Hb A) e a hemoglobina normal predominante no feto é designada hemoglobina fetal (Hb F). Ao nascimento, as crianças com hemoglobinopatias, ou as portadoras de traço para a hemoglobina variante, também apresentam o predomínio da Hb F, sendo que podem ocorrer as seguintes possibilidades fenotípicas: Hb FS (presença da HbS e ausência d a HbA); Hb FSC ou FSD– Punjab, etc (ausência da Hb A e presença da HbS com outra hemoglobina variante, como a HbC ou D, respectivamente); Hb FSA (presença da HbS em maior concentração que a HbA). Desta forma, lembramos que todo recém-nascido com resultado positivo para a DF necessita da atenção de uma equipe multidisciplinar de profissionais que integrem as várias áreas do conhecimento. A recoleta da amostra de sangue após o sexto mês de vida, ocasião em que o perfil de hemoglobinas da criança se aproxima do perfil de hemoglobinas do adulto, é fundamental para o diagnóstico confirmatório, sendo também necessário o estudo familiar para complementação da avaliação e fins de aconselhamento genético.
Após o sexto mês de vida, podemos considerar que os pacientes que não foram submetidos à triagem neonatal e ao diagnóstico diferencial para as diferentes formas de DF, devem ser avaliados quanto a presença de sinais e sintomas clínicos da doença, além de realizarem os exames laboratoriais adequados, consistindo da eletroforese em pH alcalino em acetato de celulose; eletroforese em pH ácido em ágar citrato ou gel de agarose; eletroforese por focalização isoelétrica; HPLC (cromatografia líquida de alta resolução); pesquisa de drepanócitos e/ou teste de solubilidade; dosagem da hemoglobina fetal pela técnica de desnaturação alcalina ou por HPLC; dosagem de hemoglobina A2 por microcromatografia em coluna ou por HPLC; hemograma, contagem de reticulócitos.
Referência:
· Maria Helena C. Ferraz, Mitico Murao. Diagnóstico laboratorial da doença falciforme em neonatos e após o sexto mês de vida. Revista brasileira de hematologia e hemoterapia, 2007.
· Orlando G.M. et AL. Diagnóstico laboratorial de hemoglobinopatias em populações diferenciadas. Revista brasileira de hematologia e hemoterapia. 2000.
· Manual de diagnóstico e tratamento de Doenças Falciformes, 2002.